Tuesday, 25 April 2017

Auxiliar de Elucidação: onde cabe a Democracia, não pode caber o Fascismo


Na confusão mediática dos dias que correm, a extrema-direita estabelece, de uma forma tentativamente legítima, o seu jogo parasitário. Vemo-la, não de estranhar sem os menores escrúpulos éticos, inverter o paradigma do seu discurso político do negativo para o positivo. Não se trata de uma mudança de paradigma natural mas da sua estratégica inversão, uma inversão por conveniência, que é um novo tipo de propaganda, fomentado, uma vez mais, pelo desejo exclusivo de poder, que vai ao ponto de adoptar atitudes impróprias às convencionadas na própria natureza da ideologia, como é exemplo o usufruto contraditório que fazem ― dentro do sistema vigente, a Democracia ― dos mesmos direitos que a esquerda um dia lhes conquistou, assim como as acusações de fascismo que grupos como a Alt-right lançam aos democratas que querem recusar-lhes tais concessões. Esta estratégica inversão de paradigma da extrema-direita, assim como do crescente número de simpatizantes que ela alienadamente influencia, serve-se daquilo que sempre combateu ― a Democracia ― para reclamar o seu direito à liberdade de acção e de expressão políticas, apenas para que, em alcançando o mais alto patamar do pódio na corrida ao poder, o possam monopolizar. Eis o argumento que lanço: o direito à liberdade de expressão e de acção política não pode, por princípio democrático, ser permitido à direita extremista, cujos princípios fascistas têm senão por base o desejo de calar o mundo em favor da exclusividade da sua voz. A voz fascista tem por único objectivo, segundo a sua natureza autoritária, suprimir a voz democrática. Logo, por que haveria a Democracia de conceder direitos de voz ao Fascismo?

Desde a alucinada chegada de Trump ao poder, apanágio do mais redondo irracionalismo histórico no contexto ocidental, que assistimos à escarrapachada inversão do paradigma da estratégia política da extrema-direita emergente que, como introduzi, tenta servir-se da Democracia ― seu inimigo directo ― para reivindicar direitos democráticos, como se um pretenso direito à expressão da sua ideologia não comprometesse, desde logo, a própria Democracia. Os princípios democráticos, embora primem pela liberdade de expressão, não podem comprometer essa mesma liberdade estendendo-a ao abuso demagógico e populista de que os fascistas se servem na esfera de acção política, pois o seu único e derradeiro interesse é somente aboli-la em favor da exclusividade da ideologia fascista. Este ponto valida per se o que defendo, assim como o torna irrefutável na base. Posto isto, a exigência de tais direitos só pode representar para nós, democratas, a maior das calúnias, uma vez que qualquer que seja o tipo de expressão fascista, por mais polido que se apresente, só pode ser contra-democrático. É bom relembrar, só de passagem, para os mais distraídos, que entre Democracia e Fascismo não há nada mais díspar. Nada os pode aproximar. Não há ligação possível. São figadais inimigos. Só uma retórica endrominada, de objectivos ocultos, pode movimentar-se numa esfera que não é a sua e que aliás deseja destruir. O que é facto é que, enquanto a Democracia mantiver as portas abertas ao Fascismo, encontrar-se-á pura e simplesmente em risco de deixar de existir totalmente, ao passo que, enquanto não favorecer os seus avanços, salvaguardar-se-á. A esfera democrática já possui, entre a esquerda e a direita democráticas, suficientes forças desmanteladoras, não precisa de agentes alienígenas extras. Claro que os teóricos da difamação contrapõem logo que a Democracia deixa de ser democrática para passar a ser autoritária, ao não permitir a liberdade de expressão e de manifestação políticas de uma forma total, ilimitada, isto é, que se estenda mesmo aos inimigos da Democracia. Mas é tudo pura retórica desintelectualizada, ilógica, de interesse partidarista parasitário ou puro desinteresse e ignorância históricos. Uma metáfora para os mais confusos: se digo, "Todos são bem vindos a minha casa", com certeza que omito o óbvio, ou seja, todos os que vêm por bem, pois se vêm para destrui-la, obviamente que não são bem-vindos. Se o Fascismo se serve da Democracia para ascender, não será para depois a cultivar. Em atingindo o poder, não se revelaria certamente democrático. Portanto, banir a voz fascista é, em todos os sentidos, pró-democrático.

Obviamente que os mais despolitizados, cujas comichões pessoais falam mais alto do que a sua capacidade de analisar e raciocinar, começam a acumular-se do lado destes reivindicadores falseados de direitos democráticos. Da simbiose entre os militantes da extrema-direita e os seus simpatizantes periféricos ― todos aqueles que começam a tomar o seu partido por influência da sua retórica endrominada, o que nomeadamente conseguem por via do abuso que fazem da leitura desintelectualizante que dirigem a temas actuais como os refugiados sírios e o terrorismo crescente (que o capitalismo ocidental, por sinal, historicamente iniciou e fomenta), a que se junta o imenso abismo de ignorância geral em que as massas burguesa e pequeno-burguesa, já por tradição, se encontram enfiadas, inclinando-se daí para tendências racistas ― é criada toda uma nova vaga de linguagem pseudo-diplomática que prima, assim, pela auto-complacência, mesmo contra os próprios princípios por que militam, uma vez que servirem-se da Democracia para atingirem os seus objectivos anti-democráticos atenta, por definição, não só contra a ideologia democrática como contra a própria ideologia fascista. Mas a ideologia fascista não vela pela integridade e consistência de princípios fortes, mas pela pura obtenção de poder, de forma a levar a cabo as suas perversões higienistas. Daí recorrer à manipulação propagandística como forma de atingir objectivos. Tais movimentações interesseiras é o que os movimentos opostos (democráticos/antifascistas/anarquistas), cuja leitura dos factos segue uma consciência democrática histórica, querem impedir. No limite do ridículo da estratégica inversão do seu paradigma, os fascistas chegam mesmo a acusar de fascismo os libertários e espíritos afins quando estes tentam travar a expressão e a acção fascistas. Por meio desta manigância, nova forma de auto-propaganda de quem escasseia de poder para mais, o neofascismo reveste a sua aparência tradicionalmente negativa por uma nova aparência positiva, que não é portanto a sua, porque o fascismo não pode evoluir nem alterar os seus fundamentos, uma vez que é de base retrógrada e vela por um tipo de militância que, por natureza, se autocircunscreve.

Os movimentos antifascistas e anarquistas (Antifa) são, sem dúvida, os únicos que percebem exactamente o nefasto esquema desta extrema-direita maquilhada e que lutam directa ou indirectamente pela restrição das suas liberdades democráticas, porque estão verdadeiramente cientes de que esta nova vaga fascista reivindica tais liberdades de uma forma estrita e objectivamente interesseira, tal como está a escapar às classes dirigentes ditas socialistas.

A extrema-direita existe de uma forma completamente desfasada do sentido histórico, não contempla o devir histórico, que dialecticamente nos quer trazer cada vez mais próximo da ideologia da totalidade, que se traduz na dissolução das classes e, por conseguinte, do poder centralizado do Estado, reivindicando para isso a democracia directa e autogestão de grupos e indivíduos, derrubando hierarquias e equalizando estatutos e poderes a todos os níveis da sociedade. Portanto, somos forçados a questionar: se os fascistas acusam os democratas de fascismo, afinal onde é que o Fascismo se situa? Esta nova tendência, fundada e difundida pela Alt-right e o próprio regime de Trump e reflectida por todos aqueles que, como eles, são demasiado covardes para se assumirem fascistas, embora apresentem todos os seus traços, chega mesmo a ser negada por estes, alegando que os neo-nazis os detestam, como se isso os ilibasse. Mas claro que para isto não há resposta, porque esta é uma pergunta puramente retórica. Nunca se perguntaria a um parasita por que razão mata a fome com o sangue dos outros animais. Portanto, a única coisa a termos em conta, nós, democratas, é que, por cada passo que o Fascismo dá em frente, a dialéctica da História regride outro. Trata-se de nos livrarmos do pântano pseudo-positivo do espectáculo capitalista: não o aumentemos!

Este abuso da retórica, esta inversão de paradigmas, tem por simples motivo a fomentação desesperada da ideologia: é, portanto, de cariz egológico, isto é, não tem uma função total, não visa a unidade do mundo, dado que se restringe a interesses de cariz doméstico/nacional. Tem por único interesse escalar a pirâmide da hierarquia e instalar-se no topo. Envereda, como forma de batimento de território político, pela auto-complacência nacionalista, em defesa portanto das linhas económico-ilusórias que demarcam as pseudo-fronteiras nacionais a que alienadamente querem confinar-se, isto é, a preservação da identidade nacional e cultural ― esses artifícios institucional-imperialistas, que tanto têm reduzido o potencial humano, cristalizando-o em ideologias alienadas. Sim, porque a nação a ser, não é senão a mentalidade instituída a sê-la. De outra forma não existe. É uma abstracção económica.

O que se entende por "nação" não é senão o produto da emancipação das limitações e privações do desenvolvimento mercantil e económico monopolizado no Estado. Neste campo, a competição económica entre forças estatais conduziu, por outro lado, à globalização, que, embora hiper-explorada pelo Capitalismo, transforma a consciência nacional cristalizada por meio da assimilação cultural recíproca (entre nações), o que, pelo menos, prova exactamente a plasticidade da natureza da cultura e a tendência dissolutiva das fronteiras. As várias culturas do mundo sempre foram assimiladas reciprocamente desde a origem dos tempos, logo uma cultura não é algo que se possa defender como intocável senão na estupidez da alienação histórica inserta na unidade de tempo de vida de grupos de indivíduos que acreditam que a sua cultura sempre foi tal como a conheceram e que o seu país sempre existiu tal como o conhecem e que tudo não passa antes de um produto abstracto dimanado de uma conjuntura de interesses conflituais que os ultrapassam profundamente. Cultura é transformação e transformação é cultura. Só um retrogradismo político-ideológico poderá querer confinar-nos a linhas territoriais cartográficas e a emanações culturais cristalizadas. Mas os países, outrora isolados, abrem fronteiras para o mundo, preparando assim o devir natural que, como a História prevê e demonstra contra os que já o tentaram parar, nos encaminha, ainda que atabalhoadamente, para a totalidade humana do mundo: a humanização da Humanidade. Atabalhoadamente, porque há muito a aprender pelo caminho devido aos muitos obstáculos que dificultam a aprendizagem.

A Democracia é verdadeiramente condescendente, pois que essa é a sua virtude, mas também o seu ponto fraco; os seus inimigos sabem-no e servem-se disso. Ainda não é claro? O retrogradismo histórico fascista não tem par e, como qualquer percevejo, tanto incomoda como é dispensável. Daqui impõe-se a questão: por que é a Democracia tão permissiva no que toca ao seu inimigo mais directo? A condescendência não pode ser dirigida àqueles que uma vez a tentaram suprimir! É um contra-senso. Segundo esta lógica ― a lógica da preservação democrática ―, restringir as movimentações fascistas, em todas as suas formas, é bom, é positivo, é democrático, e só é "fascismo" para a agenda retórica dos fascistas, que pretendem contaminar a confusa opinião pública. Mas, mesmo embora inimigos da Democracia, não deixam no entanto de se servir dela para ganharem terreno na difusão dos seus objectivos particulares, retrógrados, anti-históricos e anti-democráticos. Assim, as acusações de fascismo que lançam aos democratas não podem afectar nem abalar os princípios democráticos, porque uma verdadeira consciência democrática nada teme que saia de uma boca fascista. Restringir, suprimir e abolir o Fascismo em todas as suas formas é um acto de amor à totalidade de um mundo que não quer fronteiras nem hierarquias, que as quer abolir; e se as quer abolir, se quer fazer jus à própria abundância natural do planeta, não pode andar para trás, tem de combater as ameaças segregacionistas sem vacilar naquilo que até aqui, dentro de parâmetros restrictos impostos, se construiu, pois aquilo que a cultura ocidental construiu, aquilo que um dia o pensamento humano libertário quis ser e em direcção do qual se pôs a caminho, mesmo por entre o crescente lodo da indústria capitalista neutralizante (que urge neutralizar) e de uma esquerda comunista que nunca se emendou, é ainda assim melhor do que a alternativa emergente de uma extrema-direita que, se pudesse, em menos de um nada trataria de fazer desaparecer o que na actualidade ainda resta de bom senso e humanismo no mundo.

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